TODOS OS MATERIAIS SÃO IGUAIS …

... mas há materiais mais iguais que outros …


no acto de projectar são necessárias decisões, muitas e variadas decisões. Decisão de fazer o trabalho, decisão de não fazer o trabalho (decisão quase sempre difícil mas algumas vezes necessária, forçadamente necessária), decisão de como abordar a tarefa.
Há decisões que estão lá, já nascem como o projecto ou estão connosco, por variadíssimas razões; por gosto, por vontade, por vaidade ou simplesmente por o não sabermos.
Cada decisão tem algo de preocupação que não pode ser obsessão, mas que contém em si uma enorme quantidade de informação vivências, repegar experiências e abandonar outras.
A decisão ou escolha de materiais ou métodos construtivos é tudo isto e muito mais.
É necessário relembrar as boas experiências, não esquecer as más, encontrar coragem para outras, novas, para explicações dos porquês e dos comos que acontecem antes, pois os porquês e comos que vêem depois são mais fáceis de explicar, de justificar.

A minha necessidade de escolher materiais, sobretudo os da pele exterior do que ainda é projecto vem desde o início dos primeiros estudos, das primeiras decisões, pois não há volume sem casca, seja esta exterior, interior ou mesmo exterior interior.

Tal como na primeira proposta que apresento ao cliente após um primeiro e breve contacto com o este (a que habitualmente chamo de provocação por tornar possível um diálogo na procura de entendimento das necessidades e objectivos deste), desde os primeiros momentos, os materiais estão quase todos definidos mas não decididos.
O material ou os materiais, tal como a pele humana, fazem parte do todo e são uma parte da identidade desta, nascem com ela adaptam-se, crescem, definem-se, amadurecem e envelhecem.

Ao pensar nos materiais, primeiro para o projecto e posteriormente para a obra, há que considerar que a obra não é o momento anterior à tomada de posse da obra pelo cliente que o transforma em casa, biblioteca, escritório, etc, etc, a obra é coisa que fica e que irá ter uma vida autónoma, irá ser usada, mal usada, vivida, sentida, compreendida e quantas vezes incompreendida. Irá ter uma vida, como a de um ser vivo e tal como este, dependendo da sua constituição física e cuidados de manutenção, irá envelhecer mais ou menos precocemente.

Projectar e decidir é também experimentar, Sem este factor experimental projectar seria um aborrecimento. Experimentar com consciência na procura de soluções que sejam a solução para as questões estéticas, suportadas por soluções técnicas de grande qualidade.
A estética, na arquitectura não pode ser suportada pela inexistência de soluções técnicas ou de soluções técnicas sem qualidade. Esta opção teria como consequência soluções efémeras que, na maioria das encomendas, não é o pretendido.

Escrever sobre estas questões, exercício que nos é pouco habitual, levamos a reflectir sobre todas estas coisas que pensamos, ajuizamos de um modo racional mas sobretudo empírico. Se possível, a construção, a arquitectura seria sempre e só empírica, num constante acto experimental, laboratorial, de verificação, de análise.
Escrever sobre estas questões leva-me a reflectir que mais que a vontade de usar este ou aquele material existe uma necessidade intrínseca daquele material naquele projecto que irá estar naquele local, cujo proprietário têm as suas especificidades, as suas particularidades.

Faço casas revestidas em pedra, madeira e vidro, porque só podem ser de pedra madeira e vidro.
Gosto da pedra tosca, da pedra lisa, das pedras grandes, algumas vezes junto de outras mais pequenas. Gosto da madeira natural, outras vezes não e do vidro onde necessário.

Faço casas revestidas a cobre e vidro, porque só assim podem ser.
Gosto do cobre e também do zinco. Os dois são metais, quase iguais e tão diferentes. Diferentes na cor, no trato, no envelhecimento e até na textura.

Faço casas com panos rebocados e pintados porque assim devem ser. Porque devem e têm que ser assim, logo a procura da melhor solução técnica é estudada, pensada e repensada, pois a pele, tal como o resto do corpo terá que envelhecer, será alvo de manutenção, necessária, obrigatória, mas a sua vivência terá que ser natural, o seu envelhecimento gradual.

A pele é somente a parte exterior de um todo corpo.
A pele dos meus projectos, das minhas obras são parte do todo e de todas as preocupações que geram as decisões.


Gaia, 30 de Junho de 2005


Carlos Castanheira, Arqt